Sunday, June 28, 2009

CÓDIGO HAYES


E agora que o infame Production Code (ou Hayes Code, como alguns ainda se referem) parece ser uma recordação distante, com tanto excesso e exploração que tomou conta (até a insanidade) do cinema americano 'certificado', nada melhor do que ler o influente estudo The Dame in the Kimono: Hollywood, Censorship and the Production Code (2001), de Leonard J. Leff e Jerold Simmons. Partindo de uma frase dita pela personagem de Iva Archer (Gladys George) em Maltese Falcon, que acabou sendo censurada na época, sem nunca ter sido dita na versão final do filme, Leff e Simmons contam de forma detalhada toda a história do célebre código que 'ajudou' a definir o periodo clássico do cinema americano, desde os seus bem intencionados começos, amplamente aplaudidos pelos major studios até ao declínio de um conjunto de regras que se tornou demasiado castiço para a revolução sexual dos anos 1960, passando, claro, pelos filmes chave que ameaçaram, moldaram e finalmente terminaram por destruir o código originando a atual classificação por idades hoje utilizada. Deixando os fatores 'cinematográficos' e técnicos de lado, Leff e Simmons concentram-se no plano comercial e moral do cinema americano da era dos estúdios e nos intervenientes de bastidores, dando uma panorâmica espetacular do que está por detrás de algumas das obras-primas em película, sem nunca perder um centímetro do interesse e espanto. Essencial a qualquer amante do periodo clássico do Cinema Americano.

LE FRISSON DES VAMPIRES


Com doses de culto tão grandes e fanáticas assim como as de profundo desprezo que alguns cinéfilos lhe tributa, Le Frisson des Vampires (1970), o clássico de Jean Rollin é uma das obras mais estranhas do euro-sexploitation dos 70's, onde se fundem numa orgia camp desconcertante a revisao estética de obras do gênero, as revoluções da década recém findada (os borbulhantes e psicodélicos 60's), os bizarros diálogos sobre lutas de classes entre vampiros e, claro, o puro exibicionismo da carne. Com um tom cinematográfico entre o estéticamente pretencioso e hilariante kitsch, este é um dos títulos europeus mais interessante a ver ou rever e analisar por entre valentes gargalhadas, sobretudo se com a ajuda deste magnifico artigo do fan Iain McLachlan.

EEGAH!


Eegah (1962) é uma daquelas obras de culto que sempre foi relegada ao desprezo pelo mainstream e que agora parece legitimada por este desesperado esforço cinematográfico em revisar filmes de carregaçao. Se juntarmos todos os 'erros' antropológicos e históricos (debitados em velocidade generosa), os vários problemas estéticos, os vistosos buracos na continuidade narrativa e a presença do gigante Richard Kiel, a sexy e pouco articulada Marilyn Manning e o troglodita herói do cinema B de R'n'R Arch Hall Jr. (uma das maiores figuras de culto dos filmes B, ator do histórico Wild Guitar e do excelente The Sadist, onde Marilyn Manning também brilha) este se torna um dos filmes mais bizarros de toda a década de 1960 , com o seu Rock and Roll à beira da piscina, interpretaçoes pouco convincentes e sobretudo a controversa - e algo simbólico - cena de 'quase violação' da apaixonada Roxy Miller (Manning) pelo troglodita Eegah (Kiel). Ao contrário das películas de macistes pré-históricos assumidamente exploitation-cheesecake de contornos modestos, Eegah é mais um low budget drive-in que remete ao universo da santíssima trindade dos teen-exploitation da década de 1950 (hot rods, rock and roll e 'barbarismo' adolescente) e que com Frankenstein's Daughter, The Giant Gila Monster, ou muitas das posteriores produções da AIP (já tarde na década de 60) é um exemplo típico do fascinante canon do cinema para adolescentes da década anterior, aqui condensado até ao ponto da exaustão, gerando algumas imagens mais frenéticas nessa mesma categoria. Aos poucos redescoberto devido sobretudo à presença do grande vilão bondiano Richard Kiel, Eegah pertence já ao panteão do camp levado ao extremo.

DEUTSCHLAND DADA


Realizado em 1969 por Helmut Herbst, Deutschland Dada: an Alphabet of the German Dada continua ainda hoje um agudo e entusiasmado documentário sobre as origens do ambíguo movimento artístico (também com nuances políticas) que abriu a caixa de pandora da arte do Século XX. Não documentando propositadamente as ações deste movimento em Paris, uma época muito mais frequentemente documentada e muitas vezes mostrada num tom romântico pouco interessante, este documentário está estruturado como um dicionário (de Z a A), revelando como poucas vezes foram mostrados, os princípais momentos e os seus intervenientes no movimento centrado no Cabaret Voltaire e nas suas ramificações ativas. Pouco preocupado em agradar às sensibilidades mainstream, como atualmente parece ser norma nos documentários sobre este movimento, Deutschland Dada apoia-se numa linguagem direta, quase 'bruta' para entregar toda a atmosfera num movimento com pouca duração temporal ativa, mas que arrassou completamente as convenções da Arte ocidental e que deu origem a muitos dos elementos das artes gráficas que hoje são consideradas como garantidos. Atualmente sem qualquer edição em DVD (que pessoalmente conheça), este documentário vai vivendo on-line, fazendo parte do extraordinário acervo da Ubu Web, e o seu download pode ser feito aqui.

A MIRROR OF THE SIXTIIES


Mais um documentário encontrado no acervo da Ubu Web, Warhol's Cinema: A Mirror for the Sixties é uma produção do britânico Channel 4 de 1989 que descreve o curto período entre 1963 e 1968 na produção de cinema da Factory, antes de Warhol começar a produzir produtos mais 'comerciais', de que Heat, Trash ou Flesh são os mais reconhecidos títulos. Mesmo sem ser de forma alguma inovador (o cinema underground americano, mesmo nos moldes minimalistas que Empire e Sleep, ambos de 1963, é anterior ao Papa da Pop), o cinema de Warhol neste curto período é marcado por um profundo voyeurismo estético (e não só), refletindo muito mais o universo do silver screen de Hollywood, tratado aqui de forma 'estática', mais do que pelo ativo e já sólido (mas pouco visível no mainstream) cinema underground em ambas as costas do território americano. Warhol's Cinema vai descrevendo sequencialmente alguns dos filmes e as suas implicações estéticas e resultados no público, usando os testemunhos de alguns dos intervenientes diretos na produção. Mesmo não entregando o que é prometido no algo pomposo título (A Mirror for the Sixties) este documentário consegue deixar nas entrelinhas a importância de um curto mas fértil período do Cinema produzido na Factory, sendo necessário para fornecer pistas para os 'não-iniciados' no cinema de Warhol e para aqueles que desconhecem este período, anterior aos títulos mais conhecidos que são atribuidos a este, que ironicamente são realizações não de Warhol himself, mas do seu 'protegido' Paul Morrisey.

Thursday, June 25, 2009

NATHAN JURAN, NOSSO PRÓXIMO







Arquiteto formado, foi um cenófrafo de renome (How green was Valley de Ford, Razor's Edge de Goulding) antes de se dedicar a direçao. Seu O Castelo do Pavor, dominado pela presença de Boris Karloff, situa-se na grande tradiçao do romance gótico. Juran se supera na sci fi de série B, se parecer sofrer com a magreza de seus orçamentos. Se Furia de uma Regiao Perdida, centésima versao do ataque de humanos por insetos gigantes, apresenta pouquíssimo interesse, o mesmo nao ocorre com a adaptaçao de Os primeiros Homens na Lua, de Wells, e sobretudo em Sinbad e a Princesa, com trucagens delirantes. Sobrepoem-se, obviamente, o personalíssimo trabalho em stop motion de Ray Harryhausen para 20 Million Miles to Earth

Monday, June 15, 2009

DVD DELIRIUM GUIDE


Combinando os mais obscuros lançamentos em DVD com algumas (desnessárias) inclusões do novo weird cinema comercial de Hollywood, este DVD Delirium: The International Guide to Weird and Wonderful Films on DVD…, editado por Nathaniel Thompson para a FAB Press, é um guia imprescidível para os film buffs, com entradas sobre algumas reliquias do exploitation, horror, trash e gêneros crossover que nunca se encontram em lojas convencionais.

STRANGE ILLUSION


A cena é nos mostrada de uma forma pudica e simbólica, explicitando apenas os seus intervenientes no reflexo da água da piscina. Lydia (Mary McLeod) confessa ao namorado Paul (Jimmy Lydon) que o seu futuro padrasto a assediou sexualmente no memso local, confirmando assim todas as suspeitas que este tinha sobre o aproveitador e psicótico Don Juan que está prestes a casar com a sua mãe, viúva e 'acessível'. Sem nunca olhar para Paul durante a frase que revela o abuso, o reflexo de Lydia na água (um símbolo para o sexo?) parece querer também mostrar a vergonha e o sentido de culpa, nunca mostradas de forma direta. Um dos mais 'repudiados', mas também um dos mais belos e especiais filmes do mestre Edgar G. Ulmer, Strange Illusion (1945) parece pouco interessado em se fazer passar por um noir decente, com algumas precipitações de argumento e atuações algo apressadas, para ser muito mais um pequeno mas perfeito compêndio sobre Psicanálise, mascarando as cruas realidades freudianas com uma espectacular simbologia analítica. Jogando com as próprias 'ilusões' das personagens, Ulmer desvela as realidades psicológicas através de uma forma espelhada, mas clara, para construir um puro exercício simbolista. Se outras aclamadas obras (sobretudo de Hitchcock) foram ao longo dos tempos catalogadas como sólidos trabalhos sobre a presença da psicanálise no cinema, esta singela mas ímpar película de Ulmer, completamente esquecida e já 'caída' no estatuto de creative commons, merece uma menção honrosa pela sua assumida e desconcertante construção do universo mental, sendo um perfeito catálogo de 'anomalias' psicanalíticas, cada qual representada por cada uma das personagens, tornando-se num dos mais definidos universos simbolistas da rica década de 1940.

REVOLT OF THE ZOMBIES


Continuando a linha camp do post anterior, o destaque vai para Revolt of the Zombies (1936) uma terrível produção dos irmãos Halperin, que decerto será de todo o interesse para os admiradores de cinema de 'blue screen', com muitas das cenas filmadas sob um película vencida onde imagens de arquivo vão dando a 'profundidade' de cenário requerida. Esta delícia camp conta com algumas das piores interpretações do cinema do gênero e decerto será um must para os admiradores de Grade Z fabricados em pequenos estúdios que populavam Hollywood antes dos anos 1960 (esta é uma produção do Favorite Films Corp., distribuidora de alguns esquecidos filmes exploitation dos 40s e 50s). O luminar desta jóia é claramente o clássico camp-horror King of the Zombies (1941), um hilário e mal articulado artefato B que decerto teria sido esquecido se não fosse a presença do comediante Mantan Moreland, um dos atores afro-americanos mais importantes para a história do cinema americano dos 30s e 40s e, num plano secundário Madame Sul-Te-Wan (outra lenda dos chamados Race Films) que, embora recorrendo às costumeiras piadas racistas que permitiam a sua presença em cinemas de frequentadores 'brancos' , consegue marcar uma presença central no filme, ao lado do boçal Dick Purcell (um dos galãs da época). Vale pela presença de Moreland, tão poucas vezes valorizado e muitas vezes 'obliterado' devido aos estereotipos raciais que sempre interpretou no cinema mainstream.

Sunday, June 14, 2009

NOTES ON CAMP


CAT-WOMEN OF THE MOON - Arthur Hilton (1953) Na linha de filmes exóticos rodados em profusao nos estúdios B hollywoodianos (Republic, Monogram, et al), esta pérola low budget ambientada em um planeta cujo oxigênio se esvai deixando somente uma raça de ferozes mulheres, ávidas pela manutençao do seu habitat tem de tudo que generaliza o camp no famoso estudo de Susan Sontag: filmagem em 3D sobre películas encardidas, dancinhas burlescas, péssima ediçao de imagens repleta de cortes de continuidade, aranhas de papelao, pin ups vestidas com roupas S&M negras e penteados retro-futuristas. Em suma, kitsch até a medula.






PROMISES, PROMISES - Jonathab Donovan (1963) A trama confusa deste nudie cutie levou os produtores e a própria Jayne Mansfield a tirar a roupa em poucas e indiferentes cenas. Whatever, umas grandes gags, como os três personagens principais num navio e diálogos selecionadamente absurdos mantém, ainda, o frescor da película.




FASTER PUSSYCAT KILL KILL - Russ Meyers (1965) Burlesco sexploitation estrelando Tura Satana e uma gangue de mulheres peitudas sedentas de sexo, porradas e malandragens. A luta de karatê entre Satana e um corredor de hot rods no meio do deserto é essencial para a compreensao dos caminhos do cinema independente americano.


ATTACK OF 50 FOOT WOMAN - Nathan Juran (1958) Extravagante filme proto feminista com Allison Hayes crescendo monumentalmente, após contato alienígena, enquanto sua roupa encolhe - para a alegria dos marmanjos. Farta distribuiçao de sarrafadas em cima do ex-chefe, policiais, colegas carolas, rivais feminas e citadinos provincianos.


LA MUJER MURCIELAGO - René Cardona (1968) - Inversossímel Trash-flick-camp mexicano, no qual milionária, praticante de 'luta livre', enfrenta 'homem-peixe' criado por cientista louco. Quando o problema se torna 'mundial', o filme dispara diálogos alucinados, gadgets sem o menor sentido, melô sexista, ajudinhas caninas e as piores perseguiçoes de carros já vistas. Perola kitsch imperdível para arqueólogos e aficcionados.


COBRA WOMAN - Robert Siodmak (1944) - Mulher é raptada por sua irma, Naja, a mulher cobra, e mantida cativa em uma ilha exótica cercada de adoradores. Um dos filmes preferidos de John Waters.