Monday, June 15, 2009

STRANGE ILLUSION


A cena é nos mostrada de uma forma pudica e simbólica, explicitando apenas os seus intervenientes no reflexo da água da piscina. Lydia (Mary McLeod) confessa ao namorado Paul (Jimmy Lydon) que o seu futuro padrasto a assediou sexualmente no memso local, confirmando assim todas as suspeitas que este tinha sobre o aproveitador e psicótico Don Juan que está prestes a casar com a sua mãe, viúva e 'acessível'. Sem nunca olhar para Paul durante a frase que revela o abuso, o reflexo de Lydia na água (um símbolo para o sexo?) parece querer também mostrar a vergonha e o sentido de culpa, nunca mostradas de forma direta. Um dos mais 'repudiados', mas também um dos mais belos e especiais filmes do mestre Edgar G. Ulmer, Strange Illusion (1945) parece pouco interessado em se fazer passar por um noir decente, com algumas precipitações de argumento e atuações algo apressadas, para ser muito mais um pequeno mas perfeito compêndio sobre Psicanálise, mascarando as cruas realidades freudianas com uma espectacular simbologia analítica. Jogando com as próprias 'ilusões' das personagens, Ulmer desvela as realidades psicológicas através de uma forma espelhada, mas clara, para construir um puro exercício simbolista. Se outras aclamadas obras (sobretudo de Hitchcock) foram ao longo dos tempos catalogadas como sólidos trabalhos sobre a presença da psicanálise no cinema, esta singela mas ímpar película de Ulmer, completamente esquecida e já 'caída' no estatuto de creative commons, merece uma menção honrosa pela sua assumida e desconcertante construção do universo mental, sendo um perfeito catálogo de 'anomalias' psicanalíticas, cada qual representada por cada uma das personagens, tornando-se num dos mais definidos universos simbolistas da rica década de 1940.

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