Wednesday, December 17, 2008

MARGINAL







O cinema marginal, como escola de cinema nunca me interessou. Nada de regras ou margens, limites e fronteiras. Apaixonei-me pelo cinema e especificamente por este cinema não por ele estar à margem, mas por estar além dela, longe das estradas de mão e contramão. Os caminhos do cinema são todos os caminhos, mas os que me agradam são tridimensionais. Aprendi com estes filmes e com esses realizadores a duvidar do mainstream, a rir das nossas impossibilidades, a fazer acontecer apesar delas. E a viver, sem ditaduras (da beleza, da coerência, do talento, da grana). Escracho, desespero, o que for, perdem para mim o sentido quando teorizados. Jairo Ferreira é o homem chave, pois registrou, atuou, pensou, sentiu tudo de dentro, câmera na mão, falível e exuberante. Cinema de Invenção, o livro, dá a cara do movimento. Suas apostas e certezas não são demonstradas, mas compartilhadas. Elas existem e estão ao alcance da mão. As idéias ali contidas resplandecem sem ser inatingíveis, ao contrário, faça você mesmo - o atualíssimo lema do punk inglês - é o que está estampado a cada imagem. Cinema de invenção e de generosidade, que não se envergonha nem esconde seus defeitos. Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Triunfo na derrota, porque não? Meu contato com estes filmes e com seus artífices começou numa mostra do Cinema de Invenção bancado pela Secretaria de Cultura de São Paulo; eu vendo os filmes e devorando o livro. Jairo, Carlão, Calasso, Candeias, Rogério, Ebert, Mojica, Tonacci, Callegaro, Bressane... O cinema marginal é real, existe, é seu vizinho ou está dentro de você. Esqueça os pedestais, o glamour, as mulheres de revista. O mundo tem cheiro, é palpável. Goze com ele, experimente seu venenos, quebre-o, olhe-o pelo avesso. O mundo é maior do que querem nos fazer crer, e essa grandeza não oprime pois nela cabem nossas fraquezas e nossos sonhos. As leis são falsas e existem para ser burladas, assim não fossem não seriam leis. Não há lei além de ´faze o que tu queres (Crowley). Filmes em trânsito, pessoas em trânsito, idéias em movimento. O cinema mais libertário nascido no ventre do mercado, boca do lixo. Irmanado no respeito à diferença e na dedicação à anarquia. Hoje, quando ouço falar em diversidade, dou de ombros. Diverso era o Cinema Marginal, que tinha a erudição de Carlos Reichenbach, a genialidade de Sngazerla, a militância de Jairo, a impetuosidade do Candeias, a popularidade do Mojica Marins. Nossa diversidade atual é a da caixinha de queijos pasteurizados: gorgonzola, provolone, emmenthal, todos com o mesmo gosto. Mas vamos sair dessa vala comum. Ou não? As vezes penso que essas pessoas e esses filmes já não cabem nos dias de hoje, dias de pragmatismo e conformismo exacerbado. Mas é certo que ervas daninhas e arvores fortes e teimosas racharão o concreto desse cinema palatável das leis de incentivo, pois o ímpeto não morre (como as baratas, que resistirão à nossa imbecilidade bélica e financeira). Pois ai estão os filmes, sobreviventes do massacre artístico imposto a seus realizadores, exilados em seu próprio país, impedidos de exercerem sua profissão, calados numa censura covarde que não ousa dizer seu nome: falso mercado. Poucos criaram estruturas que lhes permitissem seguir filmando (como Reichenbach e Bressane, cada qual a sua maneira), mas a imensa maioria não se adaptou e foi, de modo cruel, confinada à margem. Se o cinema é um campo de batalhas (e é), nos últimos meses tivemos baixas cruciais no front de resistência da Invenção. Primeiro perdemos Jairo Ferreira, o crítico, cineasta, militante que deu na carne o exemplo máximo de coerência e irredutibilidade, colocando-se acima do conforto, do dinheiro, das convenções, das classes sociais, da própria fome. Encarnação árida da liberdade, sem receio de pagar o alto preço cobrado por ela. Em seguida foi Rogério Sganzerla, o visionário exuberante, autor revolucionário vítima da reação violenta à sua genialidade precoce. Como ele mesmo sentia, nunca lhe perdoaram tamanha destreza, precisão, criatividade, capacidade de realização. Tentar reduzi-lo a criação brilhante de O Bandido da Luz Vermelha e A Mulher de Todos é sinal da nossa limitação dramática na apreensão e desfrute estético. Com seus dois primeiros filmes, Rogério foi colocado num infame pedestal forjado como tumulo (Mojica, outro visionário, seguia sonhando e filmando suas histórias de pessoas enterradas vivas). Por fim, deixou-nos o grande libertário da montagem cinematográfica (e parceiro de universo de Sganzerla), Sylvio Renoldi. Intuitivo e certeiro, Jairo Ferreira já o apontava como outro gênio por trás da exuberância do Bandido. Renoldi atuou em diversos filmes (O Bandido, O Pornográfo, As Libertinas, O Profeta da Fome), e nunca se restringiu a escolas ou gêneros. Além desses, comandou o ritmo de títulos tão dispares quanto A Hora e a Vez de Augusto Matraga, O Homem Nu e Lúcio Flávio: o Passageiro da Agonia, para ficar em poucos e representativos filmes, marcos da história do nosso cinema. Montou westerns, comédias filmes eróticos. Sabia que estava acima de rótulos, como todos estamos. E exerceu sua atividade deixando a lição do experimentalismo e o brilho de seu talento. Dessas pessoas a quem tanto devemos, fica a memória viva da presença sempre iluminada. E ainda os filmes, para ver e rever, inquietos e inevitavelmente explosivos. Para além dos que aqui citei por maior afinidade, inúmeros outros estão por ai cumprindo sua sina de artistas, antenas, profetas, magos. O cinema é uma ferramenta fantástica para o conhecimento e a libertação, mas não a única. Aproveitemos esta oportunidade para olhar nestes filmes como a vida corre pulsante, sem freios. Vejam como se encaixam perfeitamente neste mundo cada defeito, cada fracasso, e como é possível e maravilhoso viver contribuindo com cada um de nossos erros à divina comédia humana, esplendorosa na força de seu mistério

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