Wednesday, December 17, 2008

ENCONTRO DE SÁDICOS




O valor de um filme em segmentos realizados por diferentes cineastas depende, naturalmente, da qualidade isolada de cada um desses segmentos. Retomando uma tradição que proliferava no cinema europeu dos anos 50 e 60, Takashi Miike, Fruit Chan e Chan-wook Park, respectivamente japonês, coreano e chinês, juntaram-se para um filme em três episódios, denominado "3…Extremes", que, forçosamente, não foge à regra. É, em essência, esse o fator que o torna um filme insatisfatório. A taxa alta de morbidez e de inventividade temáticas, raros são os objetos equiparáveis a "Dumplings" (perdoe-se o esquecimento da tradução português), concebido por Fruit Chan. Uma atriz no caminho do envelhecimento dirige-se a casa de uma habitante de um bairro periférico para experimentar os seus bolinhos, conhecidos pelo seu efeito rejuvenescedor. A habitante é também 'abortadeira', usando os embriões como principal ingrediente dessas iguarias… É importante lembrar que este foi o único episódio transformado pelo seu autor em longa-metragem. Tal é notório pela forma sintética como a ação é mostrada, deixando antever mais do que é mostrado, mas interfere com a qualidade do filme. Pela amostra dada, diga-se que parece estar-se perante um objeto sólido mas algo acadêmico, de uma escatologia e de uma violência visual inolvidáveis (vale conferir a cena do aborto de uma jovem violada pelo seu pai). Se cobrássemos tributo pela estilização cinematográfica, Chan-wook Park já tinha acabado, sozinho, com o déficet das nossas contas públicas. Assim o prova "Cut", desgarrada história de um figurante que rapta o seu realizador fetiche e a esposa deste, como vingança pelo estado miserável em que a sua vida se encontra, especialmente quando comparada com a próspera vida do realizador. Chan-wook Park é um esteta, e isso nota-se à distância, pela ação que decorre num set cinematográfico e pela abundância cromática da sua curta-metragem, onde, cenograficamente, o xadrez do chão convive com o azul escuro das paredes. Mas "Cut" destaca-se pelo sadismo na relação de Park com as personagens, de que são exemplos o esquema para imobilizar a esposa do realizador, bem como os dedos que a esta são amputados, de uma forma quase burlesca. Quando o rapaz que se senta no sofá, parte mais misteriosa do enredo, exclama “Vou-me vingar!”, o espectador conhecedor do cinema do coreano não pode evitar sorrir… De Takashi Miike, o respeito pela obra anteriormente vista impede grandes elaborações. História de confronto familiar e de pesadelo, perde-se num estilo pretensamente poético, meio enganador e meio fútil. Foi este o realizador que nos deu o soberbo "Audition"? Custa a acreditar. O balanço é simples: Park pulveriza os outros dois, e mostra ser um dos mais estimulantes realizadores recentemente descobertos. O seu segmento, dos melhores momentos de cinema extremo trouxe, só não sofre com as curtas-metragens que o rodeiam porque demonstra mais audácia, imaginação e ideias que noventa e nove por cento das longas-metragens que por aí andam. "3…Extremes" é Cut e o resto é paisagem.

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