Thursday, December 25, 2008

GLEN OR GLENDA




Glen (Edward D. Wood Jr., ou Daniel Davis como é creditado) encontra-se num impasse que poderá marcar a sua vida para sempre: revelar que só é feliz quando se veste de mulher ou tratar tal 'doença' de forma a poder casar e ter uma vida 'normal' com Barbara (Dolores Fuller)?Um dos maiores documentos do camp (involuntário?) no cinema, Glen Or Glenda (1953) é a mais bizarra obra daquele que seria mais tarde alcunhado - erroneamente - como o pior realizador da história do Cinema e aquele que foi um dos últimos verdadeiros exemplos do exploitation no Cinema americano (refiro-me aqui claramente às séries de 'documentários' que proliferaram por toda a 'paisagem marginal' do cinema entre as décadas de 10 e 40 do século passado). Mas mesmo tentando ainda situar-se num lado 'informativo', Glen Or Glenda possui já o core do que é de fato sexploitation, um gênero que apenas se 'assumiu' nos 50s como cinema de 'autor' nos EUA, bem mais 'assanhado' e com motivos bem mais expostos. De resto, algumas das mais bizarras imagens deste filme, misturando o teor auto-biográfico de algumas das sequências com uma perspectiva 'documental' dúbia e mais ousada que os documentos exploitation anteriores, parece já anunciar um emergente gênero (o sexploitation), bem mais orientado para uma perpectiva de autor, que Wood aqui é um dos pioneiros. Tentando explicar (explicar-se) a questão sexual com que mais pessoalmente se identificava, Wood mistura nesta comédia involuntária o filme científico e conteúdos com tendências 'educativas' e 'morais' da primeira vaga do exploitation (na altura já ultrapassado devido à já emergente e mais acessível indústria cheesecake e soft core) com alguns stag films a ilustrar outras 'perversões' socialmente mais condenáveis, possivelmente incluidos no filme pelo produtores (a Screen Classics, uma conhecida produtora exploitation da época), de forma a gerar mais interesse nos patronos da bilheteira, pouco interessados em ver Wood de peruca louca e salto alto a espreitar casacos de pele. Com encenações bem primárias e representação amadora e rígida (como ditava o canon deste fascinante género cinematográfico), Glen Or Glenda entrega uma visão pessoal do realizador sobre a questão, tentando exorcizar os seus fantasmas, e que culmina com a cena imortalizada no cinema mainstream no poster de Ed Wood de Tim Burton marcando o conteúdo moral do filme, afirmando que o amor conquista qualquer adversidade convivencial, mesmo aquelas de Wood padecia e que o fez gerar, com um entusiasmo conhecido, um dos mais fascinantes (e influentes, diga-se) documentos cinematográficos dos anos 1950.

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