Sunday, October 18, 2009

REPULSION


O clássico Repulsion (1965) conta com a participação de Catherine Deneuve como Carole, uma tímida e sexualmente reprimida garota belga que vive em Londres com a sua irmã (Yvonne Furneaux) e trabalha num salão de beleza. Quando a sua irmã se ausenta com o namorado para umas férias, Carole é deixada sozinha no apartamento de ambas. Paralisada com medo, evita sair de casa para o emprego e fecha-se no apartamento, onde rapidamente percorre um caminho que a levará à loucura e ao homicídio. Repulsion pertence a uma trilogia que muitos gostam de chamar de “The Apartment Trilogy”, que inclui, para além deste filme, Rosemary’s Baby (1968) e Le Locataire (1976). Ao vermos qualquer um destes filmes torna-se óbvio o título atribuído a esta espécie de trilogia solta. Todos eles têm como temas principais a solidão, o isolamento, a reclusão e a loucura. Têm também um outro “ator principal”, o apartamento numa grande cidade, onde o personagem se isola, dando origem a uma solidão que se pode entender como um “solitário com muita gente”. Estes temas, tornados recorrentes nos filmes de Polanski, encontram em Repulsion a sua representação mais séria, não procurando refúgio em temáticas sobrenaturais ou humor negro. No centro da narrativa, a reclusão de uma personagem, Carol. Esta reclusão, para além de afetar a narrativa, influencia toda uma estética visual. Quando Carol, que sofre claramente de problemas mentais ou psicológicos, cai numa espiral descendente de loucura, é através dos seus olhos que observamos o mundo, o seu mundo.

Quando vemos Repulsion é inevitável não pensarmos no Expressionismo Alemão. Filmes como “O Gabinete do Dr. Caligari” (1920) de Wiene ou “Nosferatu” (1922) de Murnau, são sem dúvida pontos-chave para estabelecermos uma relação e comparação. Totalmente afastado da estética mais teatral do Caligarismo, Repulsion não o recusa quando se trata de caracterizar a deformação do espaço, que através dos olhos da personagem sofre as mais diversas mutações/alterações que ilustram os conflitos internos dessa mesma personagem. O mesmo se passa com o uso do contraste entre a luz e a trevas, neste caso, entre a sanidade e a loucura. Tal como nos primeiros filmes expressionistas, que não eram sonoros e onde os atores se valiam das suas expressões faciais para demonstrarem o que se passava no seu intimo, Repulsion não se refugia nos diálogos para ilustrar o que vai na mente da personagem. Serve-se sim de um silêncio e de uma timidez que, refletidos na face de Catherine Deneuve, se tornam completamente incomodos e aterradores.
Com o decorrer da película é fácil encontrar elementos que se podem associar ao Expressionismo, sejam os grandes planos do rosto da personagem, as rachas das paredes do apartamento que aumentam cada vez que o pânico assalta a personagem, o aspecto orgânico, semelhante a barro, dessas mesmas paredes que retêm em si as marcas do rosto e das mãos de Carol quando esta se encosta a elas, ou até mesmo as mãos que brotam das paredes de um corredor e se esticam para tocar/agarrar a personagem.
O que poderia parecer um simples filme de horror, revela-se muito mais do que isso. Filmado de uma forma fria e analítica, jogando com influências dos mais diversos quadrantes, Repulsion torna-se um estudo clínico sobre a loucura humana, permitindo ao espectador mergulhar na mente da personagem principal sem que a qualquer momento sinta compaixão pela sua desgraça ou a censure pelos seus atos.
Se são claras as correntes que influenciaram Roman Polanski na realização deste filme, é também clara toda a sua genialidade, ao criar uma história que ainda hoje se revela perturbadora e que abriu muitas portas para um género de cinema que se tornou cada vez mais extremo.

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